A acupuntura busca tratar o paciente como um todo e não como um ser dividido em pedacinhos

POR: PATRICIA BOCCIA E DANIELA TALAMONI

Provar que o toque das agulhas é capaz de excitar as células nervosas da pele, atingir o Sistema Nervoso Central (SNC) e estimular o cérebro a produzir analgésicos e antiinflamatórios naturais foi fácil. Afinal, o princípio é muito semelhante ao da massagem (com agulhadas no lugar do vaivém das mãos) e favorece a liberação de substâncias capazes de aliviar as tensões musculares, as dores e de promover o bem-estar geral. Basta uma sessão de acupuntura, aliás, para atestar esse benefício na prática.

O problema foi convencer pacientes e médicos, especialmente os do Ocidente, de que a técnica nascida há 5 mil anos na China era capaz de fazer muito mais pela saúde: como reduzir a pressão arterial, equilibrar os níveis de glicemia no sangue, afastar as crises de asma, controlar os sintomas da esquizofrenia, dar uma forcinha para a memória e até conter a ejaculação precoce. Não é à toa.

A medicina chinesa enxerga o corpo de uma forma muito diferente dos ocidentais. Imagine o organismo humano como um televisor: enquanto o Ocidente se especializou na manutenção do aparelho e na substituição de peças avariadas, os orientais sempre olharam com atenção a energia que move o mecanismo. Para eles, corrente regulada significa aparelho funcionando bem. Já uma rede com níveis baixos ou elevados de energia fazem o aparelho funcionar mal.

Deste lado do hemisfério, os males são associados a vírus, bactérias, proliferação de células doentes e os tratamentos costumam ser pontuais e cada vez mais específicos. Enquanto que para os orientais, as doenças são desencadeadas por um desequilíbrio energético, a acupuntura atuaria em pontos certos do corpo para desbloquear o fluxo de energia e manter o organismo funcionando em harmonia. Filosofias e princípios à parte, na tentativa de traduzir a teoria da energia vital para uma explicação menos mística e mais fisiológica e científica, o Ocidente passou a financiar pesquisas para comprovar a eficácia da técnica e, finalmente, descobriu e aceitou o seu poder terapêutico.

Resultado: a acupuntura deixou o limbo das práticas alternativas e passou a integrar o Olimpo da ciência contemporânea. Ainda não se consegue esclarecer por completo quais os mecanismos acionados pelas agulhas que possibilitam o alívio ou a cura dos sintomas das doenças não necessariamente ligadas à dor. Mas que a técnica funciona ninguém mais duvida.

Aval científico

A acupuntura vem colecionando ao longo dos anos provas científicas do seu poder terapêutico. Na década de 80, após 25 anos de pesquisas, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou o documento Acupuncture: review and analysis of reports on controlled clinical trials, no qual expõe os resultados destes estudos. Neste estudo, que foi atualizado em 2002, é analisada a eficácia das agulhas em comparação ao tratamento convencional para mais de 200 doenças ou sintomas. Há uma lista com 41 doenças em que a técnica resolveu mais de 30% dos casos ou foi até mais efi- caz do que os remédios.

E o estudo mais recente, embora não tenha recebido o reconhecimento dos acupunturistas brasileiros, por tratar-se de um trabalho isolado, chama atenção para duas novidades capazes de deixar o método ainda mais popular: um possível aumento na possibilidade de aplicação das agulhas na medicina e a constatação de que em muitos casos a técnica pode resolver o problema sozinha. O pesquisador Du Yuanhao, do Centro de Pesquisa de Acupuntura Chinesa de Tianjin, garante ser possível tratar 461 doenças, relacionadas aos sistemas nervoso, digestivo, genitourinário, aos músculos e ossos e à pele. E que ele conseguirá dividi-las em três categorias: as que podem ser curadas apenas mediante a utilização da acupuntura; aquelas para as quais ela é o tratamento principal e os males nos quais as agulhas podem só ajudar.

Em nosso país, a acupuntura é aplicada em diversas áreas. “Da pediatria à psiquiatria e até em casos em que ela não tem indicação absoluta, mas ajuda a melhorar o estado geral do paciente, como em moléstias infecciosas, recuperações cirúrgicas e tratamentos de câncer”, conta o médico Ruy Yukimatsu Tanigawa, presidente da Associação Médica Brasileira de Acupuntura (AMBA).

As agulhadas na prática – A grande maioria dos pacientes que procura acupunturistas já peregrinou por inúmeros consultórios e tem um diagnóstico claro do problema que os aflige. Desse total, 80% quer se livrar de alguma dor. Embora seja conhecida pela eficácia em conseguir aplacála, a verdade é que a medicina chinesa é muito mais ampla. “Além da acupuntura, quando se trata em aplicação da medicina chinesa, também está se falando de uso de plantas e minerais, alimentação equilibrada e exercícios terapêuticos, como massagens”, ex pli ca o cirurgião vascular Wu Tou Kwang, um dos pioneiros no ensino da técnica no país e diretor do Centro de Estudos em Acupuntura e Terapias Alternativas (CEATA).

Os estudos avançaram de tal forma e abrangem tantos campos que, hoje, falar só do efeito analgésico é pouco.

“O objetivo central da acupuntura é basicamente prevenir doenças”, explica Jou El Jia, médico e professor de acupuntura da Faculdade de Medicina de Jundiaí, de São Paulo. Além disso, a técnica busca tratar o paciente como um todo e não como um ser dividido em pedacinhos.

O problema é que, culturalmente, a procura por um tratamento só ocorre quando o paciente está sentindo algo ou já ficou doente. Neste sentido, o acupunturista pode resolver a maioria das doenças. Em outras, porém, pode ajudar com os sintomas. “Um paciente com câncer, por exemplo, pode beneficiar-se da acupuntura para driblar os efeitos colaterais da quimioterapia e também pode aumentar a sua resistência física para o tratamento convencional, mas deve ser enviado para um oncologista, que detém o conhecimento das mais modernas ferramentas para acabar com a doença”, alerta Hong Jin Pai, médico da equipe de Acupuntura do Centro de Dor do Hospital das Clínicas, de São Paulo, e diretor de relações internacionais da Sociedade Médica Brasileira de Acupuntura (SMBA).

Fonte: Site Revista Viva Saúde

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